EVENTOS
COLINAS é como uma velha cidade. Um disco feito da sedimentação de memórias e mistérios,
da sobreposição de camadas de tinta e de patine. É feito de tempo, do tempo que foi preciso
para dizer adeus à cidade-mãe, do tempo que a desfigurou, do tempo que trouxe o
distanciamento. É nesse hiato que se cria o disco, tendo como matéria prima um conjunto de
gravações feitas numa cidade em iminente transformação, como quem decide partir, levando
consigo um velho álbum de retratos para enganar a saudade.
COLINAS é um processo. Um longo processo de composição, que começou há uma década na
recolha de paisagens sonoras de Lisboa e que se estendeu na colaboração de Lázaro e João
Vairinhos na composição de um tema para cada colina da cidade e que culminou numa
rigorosa labuta de produção e sobreposição de recortes, rock e rasgo. É também um convite ao
percurso (por ruelas sinuosas, através do som e da alquimia dos estados de espírito), à viagem
(às profundezas do luto, numa reminiscência da cidade que foi e do que deixámos com ela,
entre partidas e desencontros), mas também à descoberta (de entusiasmantes caminhos de
composição, de surpreendentes paisagens musicais, de novas cidades por inventar).
COLINAS é rock e cinema, tem noise e deambulação, eletrónica e vozerio de cidade,
sintetizadores e flauta de amolador, tem fado e bateria, samples manipulados engenhosamente
e tem o dom de transformar os recortes de uma Lisboa evocada, no impacto da música de
guitarras. Sendo evocativo, não cai na nostalgia saudosista, nem trilha caminhos batidos,
puxando adiante com o entusiamo do recomeço e da itinerância, misturando tudo.
Lázaro faz da dor fantasma o braço que toca a guitarra (é o som que preenche o vazio), faz da
banda-sonora canção, tocando com fúria e fome de futuro e faz, da colaboração com o
baterista João Vairinhos, um incrível disco (tão imediato, quanto etéreo) que poderia ser um
novo capítulo das “Cidades Invisíveis” de Calvino ou a cenografia de um hipotético filme de
David Lynch sobre Lisboa.